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PIO & MÁRIO - DIÁLOGO DA VIDA INTEIRA

PIO & MÁRIO t
diálogo da vida inteira
t Pio e Mário, diálogo da vida inteira, traz a público a correspondência inédita e praticamente completa do fazendeiro Pio Lourenço Corrêa com Mário de Andrade, transcorrida entre 1917 e 1945, ano da morte do autor de Macunaíma.
t Iniciada em função do forte laço afetivo que unia as famílias de ambos, a improvável troca de cartas entre o homem maduro do interior e o jovem intelectual urbano – que guardavam uma diferença de idade de 18 anos entre eles – permite um contato com a vida cotidiana do escritor paulista, por ângulo pouco conhecido, além de revelar a fascinante personalidade de Pio Lourenço Corrêa.
t Contando com um ensaio inédito e extremamente inspirado de Gilda de Mello e Souza, essa edição, longamente ansiada por Gilda, é lançada agora por iniciativa da Ouro sobre Azul, que concebeu editorial e graficamente o volume e realizou a pesquisa iconográfica que acompanha a transcrição das cartas.
t As 353 imagens do livro, grande parte delas inéditas, percorrem um arco de tempo que vai de fins do séc. XIX a meados do séc. XX, permitindo uma aproximação bastante fiel do universo dos correspondentes.
t O estabelecimento de texto, a transcrição e as notas tiveram origem na dissertação de mestrado de Denise Guaragna, A riqueza nas diferenças, defendida em 2007 na área de Literatura Brasileira da FFLCH-USP. A pesquisa, orientada pelo professor Marcos Antonio de Moraes e co-orientada pela professora Telê Ancona Lopez, foi subsidiada pelo CNPq.
t Ainda no que o que se refere às notas, como também às observações que acompa–nham cada uma das cartas, foi usada a metodologia desenvolvida pela Equipe Mário de Andrade do IEB Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.
t Finalmente, para situar Pio Lourenço Corrêa, figura desconhecida do público, a Ouro sobre Azul contou, nessa edição, com uma nota biográfica suscinta mas muito precisa feita por Antonio Candido, grande amigo de Pio e seu interlocutor constante entre os anos de 1944 e 1957.
t Prefácio | Antonio Candido
t Introdução | Gilda de Mello e Souza
t Editora responsável | Ana Luisa Escorel
t Estabelecimento de texto e notas | Denise Guaranha
t Estabelecimento de texto, datas e revisão ortográfica | Tatiana Longo Figueiredo
t Projeto Gráfico | Pesquisa Iconográfica | Edicão de Imagens | Ana Luisa Escorel
t Formato | 18cm x 27.6cm
t Número de páginas | 424
t Número de imagens | 353
t Papel | Couché Garda fosco 150 g
t Impressão | 4 cores
t ISBN | 978 85 88777 30 9
t Preço | r$ 90,00
t Co-edição | Edições SESC SP | Ouro sobre Azul
ário de Andrade foi um infatigável escritor de cartas. Se ainda vivo, é bem provável que passasse horas em frente ao computador enviando e-mails. Ou melhor, como um dos expoentes do Modernismo brasileiro, enviaria milhares de “correios eletrônicos”. Diferente da escassez de palavras, da enxurrada de abreviações, dos espantosos laconismos possíveis do pouco dizer de hoje em dia, o autor do preguiçoso Macunaíma deitaria nas telas reluzentes do futuro uma torrente de frases e idéias que vagariam soltas, colorindo a fantasmagórica virtualidade de nossos tempos corridos e quase afônicos.
s Independente do suporte técnico que acompanha as correspondências no decorrer dos anos, a epistolografia sempre foi importante fonte de estudos, seja para se entender o contexto de uma época, seja para desvendar o processo criativo de um artista, seja para tantas outras coisas. Com Mário de Andrade, esta relevância toma dimensões gigantescas. Passava horas escrevendo aos amigos, e adorava fazê-lo. Dentro de um processo de escrita, corresponder-se com os que lhe eram próximos poderia significar também a busca de uma liberdade na conjuntura política, intelectual e artística por onde transitava.
s As cartas e bilhetes trocados entre Mário de Andrade e Pio Lourenço Corrêa, a partir de 1917, conferem um tom diferente no rol de correspondências do escritor paulistano. Tornam-se elementos preciosos para o entendimento de uma vida intimamente cotidiana ao não se concentrarem necessariamente em discussões e reflexões artísticas, políticas ou didáticas, embora tais temas perpassem os assuntos entre o mestre Pio e o pupilo Mário.
s O que prevalece neste rico conjunto de missivas é o surpreendente elogio à memória. São “gestos” imperceptíveis de amor e amizade:
O que posso lhe oferecer em troco do presente valioso é mesmo só isso, umas palavras carinhosas. s de Mário de Andrade para Pio Lourenço Corrêa
s São as febres do corpo e da mente, sujeitos aos cuidados da infância; são as terras muitas nos trilhos da araraquarense, no chão de uma chácara, na vontade de um macuco. Podem trazer os freios das morais, mas pelo carroção que carrega os desejos deixa escorrer pelas tábuas soltas do tempo uma pureza que nem as Musas – filhas da deusa Memória – conseguem conter.
s Sim, as memórias crescem, no decorrer da vida se avolumam em número e tamanho, tornam-se por vezes tão gigantescas que não conseguimos mais, à moda de Álvaro de Campos, trazer o passado roubado na algibeira. Entretanto, entre o dito e o não-dito, entre o sonhado e o feito, na neblina do encontro e no concreto das despedidas, Pio & Mário – diálogo da vida inteira é mais uma gaveta que se abre e nos apresenta, com encanto e beleza, que a vida plena é feita de presente, futuro e reminiscências.
Elogio da Memória s Danilo Santos de Miranda s Diretor Regional do SESC SP s 2009
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t TRAÇOS BIOGRÁFICOS t Antonio Candido | São Paulo 2008
t O correspondente de Mário de Andrade, Pio Lourenço Corrêa, nasceu em Araraquara em 12 de maio de 1875 e lá morreu em 11 de junho de 1957. Era filho único do segundo casamento de Joaquim Lourenço Corrêa – fazendeiro, comendador da Ordem da Rosa, chefe político liberal no seu município – e de Rita Maria Pinto de Arruda, também viúva. O nome que lhe deram é o mesmo do irmão morto no Paraguai como tenente de Voluntários, em decorrência de ferimentos recebidos em combate, no ano de 1866.
t Morrendo-lhe o pai em 1887, ficou sob a tutela do irmão consangüíneo Antonio Lourenço Corrêa, que o mandou como aluno interno para o Seminário Diocesano de São Paulo. Com a morte também da mãe, no fim de 1888, seu padrinho e parente Joaquim de Almeida Leite Moraes, advogado, jornalista, político, professor da Faculdade de Direito, tirou-o de lá com o consentimento do tutor e o levou para morar consigo. Na mesma casa moravam a viúva e os órfãos de seu irmão Cândido Lourenço Corrêa da Rocha, ela filha de Leite Moraes, e também outra filha deste, com o marido e os filhos que iam nascendo, entre os quais, Mário de Andrade.
t Pio Lourenço fez estudos primários numa escola de Araraquara, mas não há informação sobre os secundários, sabendo-se apenas que foi aprovado em exames finais de duas matérias, aritmética e francês, em 1889. Em 1892 acompanhou numa viagem à Argentina o irmão tutor que, quatro anos depois, o chamou de volta a Araraquara para cuidar da vida.
t Por essa época, a cidade estava, como muitas outras do Estado, assolada pela febre amarela que, além da mortandade, provocou pânico, êxodo, e a falência dos serviços públicos, pois as autoridades se refugiaram em fazendas e povoados da região. Então, Antonio Lourenço, depois de restabelecido da doença, assumiu o comando por iniciativa própria, tomando medidas que remediaram a situação. Nessa tarefa de liderança salvadora foi ajudado por parentes, entre os quais Pio, que em 1945 publicaria um relato cheio de vivacidade sobre a epidemia, cuja duração em Araraquara foi de 1895 a 1897.
t Em 1898 casou com a sobrinha Zulmira de Moraes Rocha, nascida em 1877, indo morar numa chácara fora da cidade comprada a pedido da sogra, a fim de preservar a mulher do contágio da febre amarela. Na virada do século ocupou os cargos eletivos de vereador e presidente da Câmara que, naquele tempo, exercia também funções executivas. Por toda a vida foi munícipe dedicado, provedor da Santa Casa e presidente do Clube Araraquarense, que dotou de biblioteca. Organizou e redigiu praticamente sozinho o excelente Álbum de Araraquara, publicado em 1915.
t Tendo sido comerciante, banqueiro e fazendeiro, mudou em 1907 para Santos como sócio de uma casa comissária da qual se desligou em 1911, ao chegar de uma viagem à Europa e verificar que os sócios tinham feito, na sua ausência, rendosas operações de cunho especulativo que contrariavam a sua austera concepção da atividade econômica. A partir daí concentrou-se nos trabalhos da lavoura em sua fazenda São Francisco, de 300 alqueires, por ele primorosamente organizada e gerida. Com exceção de um período no qual deve ter alternado a residência entre a chácara e uma casa que tinha no centro da cidade, de 1912 a 1918, provavelmente, e outro em que morou na fazenda, de 1918 a 1920, Pio Lourenço viveu sempre na Chácara da Sapucaia.
t Intelectual por vocação construiu aos poucos como autodidata um saber de grande solidez e coerência não apenas no terreno predileto dos estudos lingüísticos, mas também em ciências naturais chegando, inclusive, a usar microscópio nas suas invetigações. Durante
muitos anos publicou artigos sobre problemas da língua, em jornais da cidade. Neste domínio, a partir de certo momento, a preocupação central, quase mania, foi demonstrar que o nome de sua terra não significava “buraco das araras”, mas “buraco da luz”, isto é, “lugar onde mora o sol”, como lhe ensinará o pai que sabia um pouco de língua geral e a quem queria justificar. Depois de um artigo de 1924 sobre o asssunto, publicou o opúsculo Monografia da palavra Araraquara que cresceu com o tempo e virou livro do qual, contando com o opúsculo, chegou a tirar em 1952 a 4ª edição.
t Pio Lourenço era dotado de um poder de concentração e de uma tenacidade mental que reforçavam a sua grande inteligência. Tinha facilidade excepcional para línguas dominando quatro: a espanhola, a italiana, a francesa e a inglesa, essa, a predileta, aprendida metodicamente com um escocês residente em Araraquara por alguns anos e que lhe transmitiu o forte sotaque de seu país.
t Personalidade originalíssima, com toque de excentricidade, era pequeno, magro, de feições corretas, voz grave bem empostada a serviço de uma dicção perfeita. Tinha um olhar penetrante que parecia sempre comandar, exprimindo um temperamento autoritário como poucos. Em contraste com o aspecto severo e certa rispidez, possuía grande senso de humor, se divertia com facilidade e era conversador incomparável. Economicamente abastado pelo próprio esforço, encarava o dinheiro como instrumento a serviço das suas necessidades, da sua generosidade e dos seus muitos requintes, não se preocupando em acumulá-lo.
t Um de seus aspectos mais salientes era o extremado corte conservador: concepção muito elitista da sociedade, senso da hierarquia, confiança no que chamava a “filosofia natural”, ou seja, a teoria darwinista da vitória do mais apto. Na conduta, o respeito pelos valores tradicionais e uma honestidade intransigente que podia chegar ao sacrifício de seus interesses.
t Pescador e sobretudo caçador apaixonado, organizou e liderou por muito tempo o grupo dos Conjurados com o qual empreendia anualmente, em regiões distantes, expedições de caça principalmente aos macucos, e que era regido por um regulamento estrito e inflexível, estabelecido por ele.
t Sua biblioteca, lida e relida de fato, não era muito grande mas extremamente adequada aos interesses que sempre o instigaram e, nela, se destacava uma notável coleção de dicionários e enciclopédias. Depois de sua morte alguma coisa se dispersou; uma pequena parte de cunho científico ficou, por legado, com um amigo zoólogo; o grosso, pouco mais de mil unidades, foi doado pela viúva à Biblioteca Pública de Araraquara, onde forma uma coleção reservada, junto com seu fichário de problemas da língua.
t Rematando, um esclarecimento: Mário de Andrade não era sobrinho de Pio Lourenço mas primo de sua mulher, além de vago parente, pois tinham um antepassado comum na primeira metade do século XVIII. Chamavam-no tio, ele e os irmãos, por ouvi-lo chamar assim um primo com o qual conviviam intimamente e era, esse sim, sobrinho de Pio.
t Gilda de Mello e Souza reuniu durante anos muito material relativo a Pio Lourenço Corrêa, seu tio-avô paterno, com a intenção de escrever um estudo pormenorizado sobre ele. Esta nota se baseia neste material. Na introdução que segue, à qual infelizmente não chegou a dar redação final, ela lembra que enquanto as cartas de Mário de Andrade publicadas até agora se dirigem a intelectuais de projeção, estas dialogam com um desconhecido do público. Trata-se, portanto, de correspondência diferente que convida o leitor a descobrir um personagem fascinante, um inesperado fazendeiro de grande cultura, cuja escrita correta e expressiva faz sentir, em cada linha, o cunho de uma personalidade singular.
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